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Aconteceu: não foi milagre! Nascido neto de italianos lado paterna e bisneto também de italianos lado materno, foi gerado e nascido em Caçador, Santa Catarina, no primeiro semestre de 1939. Três meses ou tempos depois estouraria a segunda grande guerra mundial pondo em confronto lideranças e interesses outros, que de forma alguma impedem o fluxo emigratório de um estado para outro no sul brasileiro; aliás, como de sempre, vindos em busca de melhores condições para a devida sobrevivência; época das araucárias, perobas, cedros e o que mais estivesse à frente para ser derrubado e serrado.
A ida em meados de 1951 (com onze anos de idade) para o seminário religioso da Ordem dos Camilianos em Iomerê, foi um erro de percurso existencial. Ainda em 1951 vamos encontrá-lo de mudança com os pais para Lages, cidade polo da região, indo estudar no colégio Diocesanos dos Franciscanos. Sempre aluno nada exemplar; logo no princípio de 1956 retorna à terra mãe como interno em colégio de religiosos maristas. Devidamente reprovado, volta para Lages e aos dezoito anos de idade vai morar na capital paranaense (na casa de tios) onde concluiu o curso ginasial no mais famoso “PP” (pagou passou), o Colégio Iguaçu de Curitiba.
De lá para a capital de São Paulo, trabalhando no escritório de uma metalúrgica de onde retorna no fim do ano à capital paranaense e ao emprego anterior numa distribuidora de livros, do que mais gostava.
O ano de 1963 passa na vagabundagem, lendo o que mais gosta de Nelson Rodrigues e escrevendo crônicas para o jornal Paraná Esportivo sobre a vida noturna, dessa usufruindo pacas, no dizer de antanho.

Em janeiro de 1964 mudo para o Rio de Janeiro, enrolado em meio às pernas de uma mulher belíssima, de esplêndida e curta vida airosa, com serragem em lugar de miolos na cabeça. Abrigo pedido e cedido de pronto no apartamento de um velho amigo, Antônio Sidney Couto, que anos antes, num descuido acerta uma bala de calibre trinta e oito, do lado esquerdo do quadril do amigo, quando manuseava a arma. A moça da serragem e objeto de ida para o Rio de Janeiro retorna antes de quinze dias por entender a fria que estava fadada a se meter e com certeza o seu amor e interesse não eram para tanto.
Por um anúncio de emprego no jornal do Brasil, surge onde enganar a torcida e suprir o estômago em um escritório de açougue em Copacabana e meses depois no balcão da livraria Ler da Editora Zahar, localizada no centro da cidade na rua México.
Em janeiro de 1965, atendendo o pedido do progenitor, deixa a cidade maravilhosa pela praiana e pacata Itajaí para trabalhar no escritório de uma madeireira na qual a família tinha uma pequena participação acionária.
Morando no melhor hotel da cidade, custeado pela empresa, vai da fome ao fausto com invejável desprendimento no restaurante do hotel. Amigos qualificados como funcionários do Banco do Brasil e Alfândega (Receita Federal) vão surgindo e abrindo portas para o conhecimento de Paul Gauguin, Modigliani, Vincent Van Gogh (holandês maluco que decepou a própria orelha), das sonatas e sinfonias de Beethoven, Chopin e outros, bem como aprender a jogar xadrez.


Surge mulher na parada e para encarar um casamento com bossa nova em seus primórdios, de fundo musical, foi preciso alterar a situação confortável e econômica de boa vida, em emprego, mesmo que de somenos importância, ocasionando, pela necessidade, a criação em consequência da primeira livraria da cidade, - um ano antes da criação da Faculdade de Direito, a primeira do interior do estado, - a Livraria Universitária. Era do que entendia e mais gostava: Livros.
Orientado devidamente pelo sogro e já pai da primeira filha, fecha as portas da livraria e se dedica a estudar para prestar concurso público para a vacância da Serventia Notarial e de Registro Civil da cidade de Itapema, então com pouco mais de três mil habitantes, na comarca de Camboriú; sem médico, farmácia, táxi, advogado, dentista, jornal ou revista nem uma casa de dois pavimentos, nem restaurante ou casa da mãe Joana. Tendo passado em primeiro lugar, assume em janeiro de 1969 tendo em outubro nascido a segunda filha.


Obcecado e dedicado integralmente pela nova profissão, só foi se dar conta do tempo passado em meia a escrituras, procurações, registros de nascimentos, matrimônio e óbitos, isso em março de 1978, quando pode comprar uma moto Suzuki de 550 cc e respirar a aventura de conhecimento viajando até Baturité, no Ceará, sem nenhuma experiência ou conhecimento de motor dois tempos, mapas e mesmo sem lenço, só documento. Com isso, estavam abertas as portas para mais oito grandes viagens de aventuras pelo Brasil, nos anos vindouros navegando em barcos e navios os grandes rios Amazonas, São Francisco, Araguaia, Tocantins e três longas viagens por países da América Latina, sempre rodando com motocicletas.
Em 1979 surge aquela que seria a mulher para toda vida, chegada livre, destemperada e já com três filhos, devida e prazerosamente reconhecidos como tal.

Das décadas de 70 e 80 são as lembranças mais marcantes da cidade, antes da era dos “cabeças de porco”, no dizer do pranteado humorista Stanislaw Ponte Preta; havia tempo para viajar pelo país de motocicleta e ler o Pasquim com a pachorra e atenção necessárias, enquanto o festival de Woodstock rolava com suas mensagens psicodélicas. Roubos, sacanagens e outros do gênero na cidade só de políticos.
Com o advento da Comarca no ano dois mil, a cidade toma ares mais sérios, novos investidores na construção civil, edifícios mais apurados esteticamente e mesmo novos homens públicos, notadamente prefeitos mais bem intencionados com o destino turístico, vão surgindo como no caso do ex- seminarista professor Sabino Bussanello e do gaúcho Dr. Magnus Guimarães. Época também em novos jornais surgiram sendo publicadas por Sogino Obentropp crônicas em todos eles. Tempo em que as motos ficaram de lado, um pouco pelos acidentes sofridos aqui, ali e acolá e outro tanto pela modernidade dos veículos de quatro rodas, o que permitiu voltar a explorar todos os estados da federação também acima do rio Amazonas, bem como parte da América Latina, com suas próprias capitais e principais cidades, por terra e pelo ar. Dessas, uma única povoa a imaginação para voltar um dia, mesmo tendo ido quatro vezes. Cartagena de Índias, no Caribe colombiano.


Por natureza considero ser um artista plástico medíocre e um voraz leitor dando ênfase no decorrer dos anos às leituras mais apuradas, de Cervantes (Don Quixote de La Mancha); Gabriel Garcia Marques (Cem Anos de Solidão), e dos brasileiros Euclides da Cunha (Os Sertões) de Ariano Suassuma (A Pedra do Reino) e João Guimarães Rosa (Grande Sertão; Veredas) sendo essas as principais leituras obrigatórias dentre tantos outros escritores pelo prazer da leitura como Herman Melville, Jack London e Kerouac, Louis-Ferdinand Céline, Lima Barreto e o principal deles o russo Fiódor Dostoiéveski.


Ah! Sim. Tanto Itapema quanto Urubici não foram escolhidas como residência no decorrer da vida. Aconteceram numa irônica quebrada, numa doida sacada das contingências: na primeira, como Serventuário da Justiça, então como uma sacra profissão, sendo uma benéfica e sempre agradecida orientação do sogro Arnou Teixeira de Melo e a segunda, uma ideia fixa havida de muitos anos com Urupema que o destino sutilmente transformaria vinte anos depois em Urubici.


Se o escritor francês Jean Paul Sartre voltasse hoje ao Brasil, diria o mesmo que foi dito pelo seu conterrâneo Charles De Gaulle quando do entrevero com a França sobre as lagostas no litoral cearense: “que o Brasil não é um país sério”.


• Entre o caos e a calmaria, escolheria a segunda.
• Para tudo que se queira fazer na vida, o mais importante é ter tesão.
• Entre o céu, o mar e a terra, esta última com certeza.
• Viver é aprender (somos eternos aprendizes).
• O maior aprendizado colhido da vida foi fazer o bem sem olhar para quem.
• Mudaria se pudesse as leis que permitiram o crescimento completamente desordenado e criminoso da construção civil na cidade em tempos idos, bem como impediria os loteamentos, alguns danosos.
• A dica que daria a um jovem principalmente seria ler tanto quanto foi lido pelo advogado itapemense Dr. Stalin Passos; aventureiro e na medida do possível, como Alvar Núñes Cabeza de Vaca; justo e honesto como foi o juiz de direito Atahualpa Mascarenhas Garrozi Passos embora tenha passado longe disso tudo nessa curta e atribulada existência de pouco mais de oitenta anos.

Texto por Higino Oltramari | Sua trajetória de vida

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